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Ciência x Religião – a opinião de Marcelo Gleiser

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Ciência x Religião – a opinião de Marcelo Gleiser

Mensagem  Welbe em 2009-10-13, 10:33

Ciência x Religião - a opinião de Marcelo Gleiser

Conciliando ciência e religião


A função da ciência não é atacar Deus, mas oferecer uma descrição do mundo mais completa

Para muitos, ciência e religião estão permanentemente em guerra. Desde
a famosa crise entre Galileu Galilei e a Inquisição, no século 17,
quando o cientista foi forçado a abjurar sua convicção de que o Sol e
não a Terra era o centro do cosmo, razão e fé aparentam ser
incompatíveis. Aos crentes, a religião oferece não só apoio espiritual
em momentos difíceis e uma comunidade fraterna e acolhedora mas também
respostas à questões de caráter fundamental e misterioso, como a origem
do Universo, da vida ou da mente.
Na sua maioria, as respostas são
relatadas em textos sagrados, escritos por homens que recebem a
sabedoria por meio de um processo de revelação sobrenatural, de Deus
(ou dos deuses) para os profetas. Para as pessoas de fé, é absurdo
contestar a veracidade desses textos, visto que são expressão direta da
palavra divina.

A atitude descrita acima faz parte da ortodoxia
de muitas religiões. Nem todos os crentes adotam uma posição tão
radical com relação à veracidade, ou literalismo, dos textos sagrados.
Uma posição mais comum é interpretar os textos como representações
simbólicas, um corpo de narrativas dedicadas a construir uma realidade
espiritual baseada em certos preceitos morais. Galileu criticou os
teólogos católicos, dizendo que a função da Bíblia não é explicar os
movimentos dos planetas mas como obter a salvação eterna. ("Não é
explicar como os céus vão, mas como se vai para o Céu.")

A
adoção de uma postura menos ortodoxa permite uma visão de mundo menos
radical, onde a religião e a ciência podem viver em harmonia, cada uma
cumprindo sua missão social. O conflito entre as duas não é, de forma
alguma, necessário. Basta saber distinguir o que uma ou outra pode e
não pode fazer. Isso serve também aos cientistas, em especial aos que
têm atitudes ortodoxas contra a religião.

Acho extremamente
ingênuo imaginar ser possível um mundo sem religião. Ingênuo e
desnecessário. A função da ciência não é tirar Deus das pessoas. É
oferecer uma descrição do mundo natural cada vez mais completa, baseada
em experimentos e observações que podem ser repetidos ou ao menos
contrastados por vários grupos. Com isso, a ciência contribui para
aliviar o sofrimento humano, seja ele material ou de caráter metafísico.

A
distinção essencial entre ciência e religião está no que cada uma delas
pressupõe ser a natureza da realidade. Enquanto a religião adota uma
realidade sobrenatural coexistente e capaz de interferir com a
realidade natural, a ciência aceita apenas uma realidade, a natural.
Aqui aparece a razão principal do conflito entre as duas. Para a
ciência não é preciso supor que o que ainda não é acessível ao
conhecimento necessite de explicação sobrenatural. O que não sabemos
hoje pode, em princípio, vir a ser explicado no futuro. Em outras
palavras, a ciência abraça a ignorância, o não-saber, como parte
necessária de nossa existência, sem lançar mão de causas sobrenaturais
para explicar o desconhecido.

Sem dúvida, esse tem sido o seu
caminho: explicar de forma clara e racional um número cada vez maior de
fenômenos naturais, do funcionamento dos átomos à formação de galáxias
e a transmissão do código genético entre os seres vivos. As tecnologias
que tanto definem a vida moderna, da revolução digital aos
antibióticos, dos meios de transporte ao uso da física nuclear no
tratamento do câncer, são fruto desse questionamento. Negar isso é
tentar olhar para o mundo de olhos fechados.

A conciliação entre
ciência e religião só ocorrerá quando ficar claro o papel social de
cada uma. Negar uma ou outra é ignorar que o homem é tanto um ser
espiritual quanto racional.

Welbe

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A ciência não deve se propor a tirar Deus das pessoas

Mensagem  Welbe em 2009-10-13, 10:38

Marcelo Gleiser

Ateísmo radical



A ciência não deve se propor a tirar Deus das pessoas


Não é surpresa para
ninguém que existem tensões entre ciência e religião. Santo Agostinho,
o primeiro grande teólogo do cristianismo, afirmava que o pensamento
aplicado à natureza leva ao pecado e à perdição; que, para obter a
redenção, o importante é dedicar-se à adoração do eterno.
Mas a
verdade é que a relação entre ciência e religião é bem mais complexa do
que essa divisão superficial entre dois campos, o da razão e o do
espírito. Infelizmente, volta e meia aparecem depoimentos que exacerbam
exatamente essa polarização destrutiva. É o caso de três livros
recentes: "O Fim da Fé" ("The End of Faith"), de Sam Harris; "Quebrando
o Feitiço" ("Breaking the Spell"), de Daniel Dennett; e "A Delusão
Divina" ("The God Delusion"), de Richard Dawkins. É sobre o livro de
Dawkins, o mais virulento de todos os três, que escrevo hoje.
Primeiro,
vamos às apresentações. Richard Dawkins é um biólogo especializado na
teoria da evolução, professor em Oxford, Inglaterra, e um dos
divulgadores de ciência mais famosos do mundo, com best-sellers como "O
Gene Egoísta" e "O Relojoeiro Cego". Dawkins é um ateu declarado. Até
aí tudo bem; muitos cientistas o são. Para muitos, mas não todos, é
importante frisar isso: a conciliação entre uma descrição científica do
mundo -baseada na obtenção de informação empírica da natureza por meio
de experimentos e observações quantitativas- e a aceitação de uma
realidade sobrenatural, inescrutável à razão humana, é impossível. Já
para alguns, o estudo da ciência serve para comprovar a beleza da
criação. Imagino que Dawkins considere esses cientistas religiosos no
mínimo incompetentes.
Para ele, a ciência é um clube fechado, onde
só entram aqueles que seguem os preceitos do seu ateísmo, tão radical e
intolerante quanto qualquer extremismo religioso. Dawkins prega a
intolerância completa no que diz respeito à fé, exatamente a mesma
intolerância a que se opõe.
Vejamos um de seus argumentos. Se a
complexidade do mundo foi criada por uma divindade, esta deve ser
necessariamente mais complexa do que tudo o que criou. Porém, segundo a
teoria da evolução, isso é impossível: a complexidade é produto da
evolução. A divindade criadora deveria ter sido a última e não a
primeira a surgir.
A quem Dawkins dirige um argumento desses?
Certamente não aos religiosos. Qualquer pessoa que conheça um mínimo de
teologia sabe muito bem que a idéia fundamental das religiões é que o
divino não segue as regras causais que regem o mundo material. Deuses
não evoluem; são absolutos, existem fora do tempo. Ele afirma que seu
alvo são os "indecisos", que não acreditam em causas sobrenaturais mas
não se declaram ateus. Será esse o modo de resolver o embate entre
ciência e religião?
Na minha humilde opinião, absolutamente não. A
atitude belicosa e intolerante do cientista britânico só causa mais
intolerância e confusão. Seu grande erro é negar a necessidade que a
maioria absoluta das pessoas tem de associar uma dimensão espiritual às
suas vidas.
Um erro meio parecido com o do materialismo dialético
dos comunistas, em que tudo é atribuído a causas materiais. Tirar Deus
das pessoas e colocar um líder fascista no seu lugar não dá certo. A
ciência não deve se propor a tirar Deus das pessoas. Se é essa a sua
guerra, então ela já perdeu.
O que a ciência pode fazer é
proporcionar outra forma de espiritualidade, ligada ao mundo natural e
não ao sobrenatural, à cativante magia da descoberta. É esse
naturalismo, essa entrega à natureza e aos seus mistérios, que dá à
ciência a dimensão espiritual que a torna humana.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

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Re: Ciência x Religião – a opinião de Marcelo Gleiser

Mensagem  vlamir d. ramos em 2009-12-20, 11:26

Certa vez ouvi que o desconhecido só é desconhecido enquanto não é conhecido. Parece brincadeira mas é isso mesmo que acontece.
O mesmo ocorre com o sobrenatural. Só é sobrenatural enquanto a ciência não explica. A partir de uma explicação científica, passa a ser natural.
A história tem vários casos.

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Re: Ciência x Religião – a opinião de Marcelo Gleiser

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